Genética & obesidade – um caso sério

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“Comi muito, estou obesa”

Quem nunca disse essa frase: “comi tanto que estou obeso(a)?”. Frequentemente classificamos alguém – ou nós mesmos – como obeso visualmente. No entanto, a obesidade é uma doença que possui características clínicas que ultrapassam o limite visual. 

A obesidade é resultado do desequilíbrio energético entre o consumo de calorias por um indivíduo e seu gasto calórico diário, levando ao excesso de peso e acúmulo de gordura corporal. O excesso de peso é medido através do Índice de Massa Corpóreo (IMC, peso/altura2), que quando se encontra maior que 30 classifica o indivíduo como obeso.

Indo além das definições físicas e numéricas, a obesidade é, assim como em outras doenças ou características, uma doença complexa resultante das interações de uma grande variedade de fatores genéticos hereditários e ambientais, como hábitos alimentares ruins, falta de atividade física, ingestão em excesso de alimentos calóricos, ambiente intrauterino, disruptores endócrinos e microbioma gastrointestinal.

Nas últimas décadas, a obesidade atingiu proporções epidêmicas

Nas últimas décadas, a obesidade atingiu proporções epidêmicas,  atingindo cerca de 700 milhões de indivíduos em todo o mundo. Segundo um estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicado esse ano, mais de um quinto da população brasileira é obesa (22,1%) sendo, 25,4% das mulheres adultas, 18,5% dos homens e aproximadamente 11% das crianças [1]. De acordo com o estudo, pessoas de baixa renda e com menor nível educacional têm maior probabilidade de se tornarem obesas.

Genética da obesidade

Nem todo mundo que tem predisposição para ser obeso, será.

Apesar da associação bem observada entre obesidade, maus hábitos alimentares e sedentarismo, nem todas as pessoas que vivem em ambientes propícios ou possuem hábitos favoráveis se tornarão obesas,  e nem todas as pessoas obesas terão a mesma distribuição de gordura corporal ou sofrerão os mesmos problemas de saúde decorrentes da obesidade. 

Já foram identificadas diferenças na prevalência da obesidade entre grupos de pessoas com a mesma origem racial ou étnica e também dentro de uma mesma família. O risco de um indivíduo se tornar obeso é de 2 a 8 vezes maior para uma pessoa com histórico familiar de obesidade, e esse risco aumenta para históricos familiares com casos de obesidade grave (ou grau III, quando o IMC > 40). 

Outros estudos compararam as variantes genéticas encontradas em pessoas obesas e nas não obesas a fim de identificar aquelas que poderiam influenciar comportamentos (como uma vontade de comer demais ou uma tendência a ser sedentário) ou o metabolismo (como uma capacidade reduzida de utilizar gordura como fonte de energia, ou uma tendência aumentada para armazenar gordura corporal). Esses estudos identificaram diversas variantes em vários genes que podem contribuir para a obesidade, principalmente associadas ao aumento do IMC.

Estudos sobre as semelhanças e as diferenças entre membros da mesma família, irmãos gêmeos e adotados e a descoberta de genes associados à obesidade são indícios que reforçam a contribuição genética da obesidade. 

Como os genes podem influenciar a obesidade?

Nosso cérebro regula a ingestão de alimentos, respondendo aos sinais recebidos do tecido adiposo, do pâncreas e do trato digestivo. Esses sinais são transmitidos por hormônios – como leptina, insulina e grelina – e outras moléculas. O cérebro coordena esses sinais e responde com instruções ao corpo: comer mais e reduzir o uso de energia ou comer menos e gastar mais energia.

Genes específicos controlam os mecanismos de envio e recepção dos sinais orientadores da ingestão de alimentos. Alterações nesses genes podem afetar sua atividade e, consequentemente, o equilíbrio energético do indivíduo. 

Primeiramente, está claro que na grande maioria dos casos a obesidade herdada em uma família não é causada por uma variante específica de um único gene (como visto na obesidade monogênica). Pelo contrário, a maior parte dos casos de obesidade provavelmente resultam de interações complexas entre múltiplos genes e fatores ambientais que ainda não são totalmente esclarecidos (obesidade multifatorial).

Os casos raros de obesidade monogênica são causados por mutações em genes que apresentam papel fisiológico no sistema de balanço energético hipotalâmico leptina-melanocortina (POMC, MC4R, LEP) e em genes envolvidos no desenvolvimento do hipotálamo (SIM1, BDNF e NTRK2), por exemplo. Além dos casos de obesidade associada à síndromes, como a Síndrome de Bardet-Biedl, de Alstrom e de Carpenter. Nesses casos, é mais fácil explicar a obesidade como consequência da mutação no gene. 

Não se pode falar de “epidemia de obesidade” sem considerar genética e meio ambiente. 

Estudos de associação ampla do genoma (Genome-wide Association Studies, GWAS) identificaram mais de 300 polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs) associados ao IMC e a outras características da adiposidade. Apesar disso, a herdabilidade (proporção da variação interindividual atribuível à fatores genéticos) do IMC foi estimado em 40-70%. Ou seja, os SNPs identificados não explicam totalmente a variação do IMC.

Apesar de ainda não termos total entendimento sobre os mecanismos em que SNPs influenciam o organismo ocasionando obesidade, há motivos para esperar que esses achados levarão a novos agentes preventivos e terapêuticos, mesmo que ainda leve um tempo para isso.

Outras hipóteses

Uma explicação frequentemente citada para o aumento da obesidade atualmente é a incompatibilidade entre o ambiente atual e os “genes de economia de energia” que se multiplicaram nos humanos no passado, quando as fontes de alimentos eram escassas. Ou seja, os mesmos genes que ajudaram nossos ancestrais a sobreviver a falta de comida, agora estão sendo desafiados por ambientes nos quais a comida é abundante o ano todo. 

Outras hipóteses incluem o papel do microbioma (conjunto de microorganismos) intestinal, bem como exposição precoce à alguns alimentos associada a alterações epigenéticas.

O velho problema das doenças ou características multifatoriais

Assim como no comportamento homossexual ou em doenças complexas, ainda não é possível testar se alguém vai ser obeso antes de ser. Mesmo que hajam outros casos na família ou mesmo que se encontrem SNPs já descritos como associados à obesidade em um indivíduo, não se pode predizer que ele será obeso simplesmente pela genética.

Isso pode parecer negativo por um lado – o obscurantismo ainda existente sobre como a genética influencia nosso organismo, mas por outro lado é altamente positivo. Assim como diz o ditado popular “nada está escrito nas pedras”, a predisposição genética à obesidade não é um fator determinístico, mesmo que você tenha alta predisposição genética a ser obeso, você não está fadado a ser. Cuide da sua alimentação, pratique exercícios físicos e acima de tudo, seja acompanhado por um médico.

Referências

[1] Fernandes, Daniela. Obesidade cresce de forma acelerada no Brasil e se aproxima da taxa dos países ricos, indica OCDE. BBC News Brasil. 10 outubro, 2019.

Qasim A, Turcotte M, de Souza RJ, Samaan MC, Champredon D, Dushoff J, Speakman, JR, Meyre D. On the origin of obesity: identifying the biological, environmental and cultural drivers of genetic risk among human populations. Obes Rev. 2018

Goodarzi MO. Genetics of obesity: what genetic association studies have taught us about the biology of obesity and its complications. Lancet Diabetes Endocrinol. 2018 Mar;6(3):223-236.

Behavior, environment, and genetic factors all have a role in causing people to be overweight and obese. Centers for Disease Control and Prevention. January 19, 2018.

Genes and obesity. Centers for Disease Control and Prevention. May 17, 2013.

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